OUR BODY:
A reflection for shaky times.

(PT)


O nosso corpo como o nosso animal de estimação, como veículo que transporta e conecta a nossa alma constantemente com o mundo em que vivemos, assim como nos conecta uns com os outros.

Ao longo dos tempos este foi lentamente capturado e domesticado, não nos devemos esquecer de que ele é selvagem e animal, e é nosso direito e dever cuidar dele na plenitude da sua natureza através dos nossos instintos e intelecto. Devemos cuidar e respeitar o nosso corpo para que nos possamos servir dele, tal como ele se serve de nós para irmos de encontro às suas necessidades e vontades. Ele é insubstituível, e é mutável quando a base dessas alterações se alinha com a sua verdade, instintos e liberdade.

O nosso corpo vai para além de ser belo e atraente a todos os momentos, vai para além desse insaciável desejo de ser constantemente cobiçado e apreciado apenas pelas suas diversas expressões estéticas e por pessoas exteriores àquele que o habita. Isto é, vai para além de ser vivido e registado apenas na sua estética visual. É o nosso instrumento de contacto com o mundo físico de tantas outras formas. Ele digere o que decidimos e não decidimos oferecer-lhe, nutre-nos e deixa-nos respirar, é onde o nosso coração bate, é o que nos transporta, obedece aos nossos impulsos, faz-nos sentir prazer e alívio, adapta-se às situações mais tensas, responde e envolve-se no mundo através dos cinco sentidos. É injusto para com ele limitarmos a nossa contemplação e apreciação apenas ao olhar.

Não nos podemos ver inteira e verdadeiramente a nós próprios (não consigo olhar directamente para a parte de trás da minha cabeça nem nos meus próprios olhos, apenas consigo ver como estes são através de um elemento exterior ao meu próprio corpo), por isso estes cinco sentidos (que culminam num sexto) são os nossos instrumentos de navegação pela existência, e é no nosso corpo que eles se encontram e afinam. O nosso corpo é feito de dualidades: luz e sombra, direita e esquerda, actividade e descanso, bons cheiros e maus cheiros, entrada e saída, força e relaxamento, conforto e tensão, carne e osso, desejo e satisfação, criar e destruir, expressivo e introspectivo, selvagem e domesticado, suave e áspero, feio e bonito. Há um sem fim destas dualidades  em nós, e uma implica a outra. Estaremos incompletas ao aceitar um dos lados e rejeitando o outro – eles validam-se um ao outro e precisam um do outro para existir. Ambos existem em nós. É um constante equilíbrio gerido pelos nossos instintos e intelecto, e por isso precisamos de o ouvir pois é através dele que a nossa intuição se alinha e refina.

O amor próprio é envolver esta amálgama de dicotomias e aceitá-las (não aceitar não é opção – é aquilo que nos foi designado e que vai para além do nosso controlo). Amar não é apreciar algumas partes de um todo que achamos serem os seus pontos enaltecedores e nutrir apenas essas características; amar implica um acto de aceitação indiscriminada. O amor próprio e o amor para com outras pessoas vêm da mesma essência: de uma vontade genuína de nutrir e deixar evoluir na sua plenitude. Isto acontece quando respeitamos os nossos instintos e natureza. O conceito de body positivity vem aqui ter, tem a ver com a aceitação de quem somos no momento presente, independentemente da sua manifestação estética e da opinião de terceiros sobre esta, tendo em si toda as suas vivências passadas e todo o potencial para o futuro. O nosso corpo é cíclico, está em transformação constante, assim como a natureza. É igualmente digno, respeitável e valioso em todas as fases da sua vida. O nosso corpo é um animal que habita e faz parte dessa natureza. Nós cobrimos todos os dias os nossos ossos com os alimentos que brotaram da Terra, e estamos inevitável e constantemente conectados a ela.

Nós, seres humanos, civilizados ou não, temos uma contínua e inevitável vontade de criar. As nossas células reproduzem-se sem fim até ao nosso último momento, quer nós queiramos quer não; nós produzimos, fazemos, conectamos, desfazemos, montamos, destruimos, erguemos, bufamos, rezamos, esperamos e desesperamos; estamos em constante movimento e alteração de nós mesmos e do que nos rodeia. Todos nós temos um corpo onde habitar e cuidar, é o único bem que temos verdadeiramente e que é nosso indiscutivelmente (não é necessária qualquer concordância entre terceiros, autenticações, documentos, validações para que se confirme que o corpo de quem o habita, é de facto, seu – ao contrário dos terrenos que ainda não tenho e do meu carro).


Retomar de vez em quando a esta visão do meu corpo como a minha parte selvagem pela qual estou responsável e na qual habito, que me permite estar e viver no mundo, e com a qual tenho a relação mais íntima e visceral, ajuda-me nos dias em que o amor próprio não está tão fácil de aceder. Para chegar a esse amor próprio é preciso compreender de levezinho a liberdade, porque é na liberdade que a várias formas de amor habitam. O meu corpo é o meu instrumento de trabalho, é com ele que ocupo estes espaços e paredes, é com ele que comunico a verdade que passa por mim.